04 dezembro 2015

Paulo Poeta






Hoje, no nosso quadro "Conversa com o Artista", um bate-papo sobre coisas sensíveis com Paulo Henrique, o conhecido Paulo Poeta, que lançou recentemente seu primeiro livro Poeminhas em São Paulo/SP. 
Confere!

1 - Você ainda continua fazendo rosas de papel?

Engraçado sua pergunta, Décio. Engraçado, no sentido de que uma pergunta simples diz muito de mim. Continuo a fazê-las. Acho que nunca vou deixar de ser ‘o menino das rosas de papel’. Sempre gostei de usar as mãos para me expressar, seja em gestos, ou em toque. Eu gosto da ideia de transformar impressões e ideias em “coisas” e poder me ver nelas. A imortalidade está nessa oportunidade criativa, de algo seu que pode cativar o outro. Apesar de adorar o subjetivismo da vida, para mim, poder tocar é algo sublime. O tocar do tato e o tocar do sentir com a alma.

2 - Como é estar imerso no mundo das palavras?

Eu diria estar imerso no mundo dos sentimentos, das sensações, das emoções. E isso é algo maravilhoso. Os poemas são espécies de fotografias, melhor, de filmes. As palavras são consequências da necessidade de partilhar vivências, ou desejos, de se transportar a algo “palpável”. Como um pintor que precisar pintar, como um escultor que precisar esculpir, como um amante que precisa amar ou, do contrário, nada tem sentido. Quando você faz o que você gosta, tudo faz sentido.


3 - Quando surgiram os primeiros poemas?

Surgiu com o primeiro amor. Quando mergulhado nesse sentimento eu me desconstruí e percebi que precisava me reconstruir. Achei na poesia uma válvula de escape. Eu precisava contar tudo o que eu estava sentindo, eu precisava registrar aquilo. Era algo importante que não podia desaparecer. Eu precisava extravasar, ou eu ia explodir. Não podia contar aquilo a ninguém. Você tem vergonha. Então achei na escrita uma forma de me libertar, de ser eu mesmo. Confesso que ainda assim me contenho muito, mas sei que é preciso muito exercício. A arte é realmente reveladora quando você fica completamente nu, quando as fronteiras desaparecem. Ainda preciso tirar algumas peças de roupa e viajar muito. Quem sabe um dia eu chego lá!

4 - Quais são as suas fontes de inspiração?

Tudo aquilo que dou importância. Na maioria das vezes, a simplicidade, o cotidiano, o ar, o respirar, o querer, o rir, o estar junto, um bate papo, uma afronta, uma tristeza, as lembranças da infância, um olhar. Não é uma coisa só, uma pessoa, algo estático. O nada às vezes me inspira, o silêncio, o vazio. Um outro poema, uma história de amor, um drama. Tudo depende do momento que estou vivendo. Adormeço de vez em quando. Então me pergunto: para foi minha inspiração? Daí, isso já vira uma inspiração. Você me entende? Se for preciso uma resposta mais precisa, eu diria que os questionamentos são as maiores fontes de inspiração.


5 - A literatura brasileira contemporânea tem espaço nas grandes livrarias e bibliotecas?

O Brasil é muito rico. Acabamos pecando por querer copiar estilos, sem necessidade. Essa coisa de globalização, de revolução tecnológica tem influenciado muito e ficamos, penso eu, a querer importar modelos, e ao mesmo tempo muito soltos. Não estou dizendo que não devemos ter influências estrangeiras, pelo contrário, eu reconheço que temos e muita, pela nossa própria origem e nossas artes vão ser reflexo disso. Precisamos disso. A arte é assim, uma troca contínua e uma reinvenção constante. Apenas tenho a impressão de que precisamos nos despir mais, precisamos de mais juventude e frescor, de novidades. O Brasil tem muita identidade e se quisermos espaço, temos que conquistar com o que é genuíno, livre e verdadeiramente nosso. Se formos originais e honestos com nossos valores artísticos sempre teremos espaço, pois daremos espaço ao inusitado.

6 - O que é ler, em sua concepção?

Ir além do ato de decodificar sinais. Bem mais que receber uma informação, ou enxergar o nexo em uma história narrada. A leitura vale a pena quando de alguma forma ela transforma. Ela não pode ser estática, tem que ter movimento, tem que fazer sentido e alterar alguma coisa na sua vida. Você vai perceber que leu quando se perceber diferente, não no sentido de se transformar em alguém superior e mesquinho, mas no sentido de evoluir e querer compartilhar o que aprendeu com a experiência.   

7 - O que é ser poeta?

É sempre querer se satisfazer na insatisfação e, na imperfeição, encontrar um verso perfeito.

8 - A poesia e o poema são...

Mãe e filho. (risos) Penso assim. É verdade! A poesia faz nascer um poema. Um poema faz nascer mais poesia.

9 - O lançamento do seu livro Poeminhas aconteceu recentemente em São Paulo/SP. Você tem pretensão de trazê-lo para a sua terrinha Natal/RN? 

E como tenho, Décio! A grande verdade é que ele nasceu ai em Natal. Era um projeto que eu tinha desde 2010. Consegui transformá-lo em realidade e partilhá-lo com amigos queridos, em um momento ímpar da minha vida. Aconteceu aqui em São Paulo, porque é aqui que estou hoje, mas levá-lo a Natal é uma certeza, porque meu coração nunca saiu daí.  

  
10 - A sua sensibilidade é aflorada, isso se deve a...?

À natureza. Não consigo explicar. Sempre fui muito intenso. Não sou de conter sentimentos. Você pode desenvolver sensibilidade ao longo da vida. Parte do que você é tem reflexo nas suas experiências, no seu exercício de leitura do mundo, mas acredito que grande parte também é um dom. E dons não se explicam. É sorte.


11 - Paulo em uma canção...?

Vocês dizer que eu não sou criativo. (risos) Mas “O que é, o que é?” De Gozaguinha, sempre me traz uma alegria imensa e uma imensa vontade de viver.

12 - Paulo em uma expressão...? 

Não consigo me descrever em única expressão. Tentei, mas não encontro uma. Deve ser coisa do momento.

13 - Paulo em um poema...?

Costumo dizer que esse é o meu autorretrato:

SENDO

Sou tão apaixonado, chego a ser tolo, engraçado.
Desses que tiram maços de flores do coração,
Que escreve versinhos pulsantes de emoção,
Cheio de sonhos, invenções e amores achados...

Dos que sentam num bar e faz bilhetinhos.
Guardanapo de papel transforma-se em rosas.
A noite quieta ganha movimento, fica amorosa.
Qualquer coisa chorosa transformo em beijinhos.

Adoro calor, colar, ficar juntinho. Abraçar...
E sorrir, estampar na face carinho, fitar.
Emoldurar a alma com o brilho dos olhos...

Quero poder guardar comigo, sentir e ser,
Continuar a sonhar que invento e acho amores,

Daí poder voar muito além dos meus temores.



Obrigado, Paulo Poeta. Espero desfrutar sempre de sua obra e quem sabe, ganhar outra rosa de papel. Sucesso, amigo!

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